Ricardo Cianciaruso é economista pela FEA-USP, publicitário
pela ESPM e com especialização em marketing pela UCLA. Seu blog, “É Nóis”, é
dedicado ao incrível poder de compartilhar, colaborar e interagir do consumidor hoje.
Tudo está mudando muito rápido. Os ainda ontem festejados Second Life e MySpace hoje já aparecem na lista dos cinco piores sites de 2007 da revista TIME. O primeiro porque é muito complicado de navegar e tem gente maluca em cada esquina, diz a revista. O segundo porque foi invadido por marketeiros e oportunistas.
Essa verdade 10 é acaciana. É um chavão. Mas é verdade. Creio que a essência desse "nada será como antes" tem tudo a ver com o poder consumidor na era digital. Quero insistir nisso. Afinal, esse blog é sobre esse poder.
Nada será como antes, pois hoje o consumidor colabora - veja o exemplo do software livre. Ele tem voz ativa - veja a verdade 9 no post anterior. Ele opina e avalia - veja que até o Wal-Mart acaba de incluir em seu site o recurso, que permite aos consumidores comentar e dar notas para os produtos. "Isso era o pedido número 1 dos nossos consumidores", afirmou seu Diretor de Marketing ontem a Reuters.
Os consumidores estão a cada dia mais interconectados - vejam os casos do Google e da Starbucks. Essas empresas cresceram apenas no boca a boca, um velho modo de difusão que adquiriu enorme relevância na era digital. Os clientes estão tirando os intermediários do meio do caminho - veja o caso do bem sucedido site de classificados Craigslist.
As comunidades online, em que hoje as pessoas se encontram para se informar e se divertir, começam a virar ponto de encontro de compras. Social Shopping será o nome do jogo - vejam que legal essa comunidade de jogadores de Xadrez. Imagine todo um comércio de Xadrez em torno disso. Isso é a Cauda Longa. Esse é o futuro.
Esses dias mais um fato reforçou a minha convicção sobre esse poder do consumidor na era digital. Foi o resultado de uma pesquisa chamada "Barometer of Trust", um levantamento anual que mede o índice de confiança recíproco das pessoas. A conclusão do estudo é a de que as pessoas confiam mais em gente como elas próprias do que em "especialistas". Abaixo o resultado desse estudo no Brasil, nos EUA e no mundo.
The 2007 Edelman Trust Barometer
O grau de credibilidade quando quem fala é . . . Notem como os brasileiros confiam mais nos outros. Notem que os blogueiros estão mal na fita. Caramba. Notem que a mídia, por algum motivo que ainda não entendi, não entrou nessa parte da pesquisa da Edelman.
Para encerrar o assunto
Esse clico de posts sobre as 10 verdades foi inspirado numa palestra da Eldelman sobre esse tema. Vi a palestra. Adorei. Aí resolvi postar sobre as 10 verdades de acordo com o meu ponto de vista pessoal.
Semana passada, tive o prazer de conversar pelo telefone com o Ricky Murray, presidente de um departamento da Edelman chamado Me2Revolution. Trata-se de uma área desta empresa de relações públicas especializada em atender clientes que querem atuar nesse mundo novo. Sua área identifica e testa novas formas de comunicação. Clientes como Microsoft, Nissan, Johnson & Johnson e Burger King já usam esses serviços. Monitoramento do boca a boca digital ou a formulação de estratégias que vão resultar em ações como um Blog corporativo, são exemplos do que faz essa área da empresa.
Verdade 9 de 10 - Elogios, reclamações e ativismo: o consumidor ganhou mais poder na Era Digital
Dois exemplos recentes ilustram bem essa verdade. 1. O clássico caso do “iPod's Dirty Secret”
Em setembro de 2003, a bateria do iPod de um jovem americano chamado Casey Neistat estava com um problema. Durava apenas uma hora de uso. Então, ele foi até uma loja da Apple no bairro do Soho em Nova York, onde recebeu a informação de que não havia conserto e nem era possível comprar uma bateria nova. A única solução era comprar um novo iPod. Não satisfeito, ele ligou para o 0800 da Apple e obteve a mesma resposta. Resolveu, então, mandar seu iPod para a empresa com uma cartinha aos cuidados de Steve Jobs. Dias depois, recebeu um telefonema da Apple com o mesmo discurso. Infelizmente a Apple não consertava e nem substituía baterias. Era preciso comprar um iPod novo.
Indignado, ele e seu irmão criaram uma página na Internet e produziram um filme chamado iPod's Dirty Secret (algo como O Segredo Sujo do iPod). Veja abaixo.
No boca a boca digital o site teve milhões de acessos. O caso teve, também, repercussão na mídia. Em pouco tempo estava todo mundo comentado. Dias após a repercussão do filme, a Apple mudou sua política de troca de baterias. Começou a vender baterias novas para substituir as danificadas e criou uma espécie de seguro, pago, para elas. Na época a empresa negou que tenha feito isso por causa dos irmãos. Coincidência ou não, foi uma vitória para os irmãos Neistat e para os milhões de donos de iPods. Um dia os livros ainda vão citar esse caso como um exemplo, emblemático, de um momento em que o consumidor começava a ganhar poder. É o poder do consumidor na era digital. E isso é só começo. Anotem aí.
Hoje, o site dos irmãos Neistat reconhece a nova política de venda e reparo das baterias da Apple. “We acknowledge Apple's new battery replacement policy. Our movie is a documentation of our experience.”
2. O Movimento BLOQUEIO NÅO
453.808 brasileiros já aderiram a campanha do BLOQUEIO NÃO. O movimento pede para que as operadoras de telefonia celular passem a vender aparelhos desbloqueados, ou seja, celulares que possam ser usados com qualquer operadora. Hoje os aparelhos são bloqueados. Só funcionam com uma operadora. Para mudar de operadora, você tem que comprar um telefone novo.
Importante notar que esse movimento é uma iniciativa da Oi, que, aparentemente, tem interesse comercial nisso. Se fosse algo nascido genuinamente da vontade dos consumidores, seria mais legal. Teria mais força. De qualquer forma, o caso é interessante pois, cá entre nós, essa prática é uma tremenda sacanagem. Apesar do interesse comercial da Oi, acho que é uma causa justa. Se essas 453.808 pessoas se transformarem em um, dois ou dez milhões as operadoras podem se sensibilizar. Quem sabe isso não vira um caso interessante do poder do consumidor brasileiro na era digital? Se você é contra o bloqueio vote aqui.
E "Nóis" ?
Aproveitando o tema desse post, eu gostaria de deixar aqui duas coisas que como consumidor sempre me chatearam.
- Nunca entendi por que uma concessionária, que vende carros zero Km, sempre paga menos quando compra seu carro usado? Se você vai comprar um carro novo eles tinham que pagar mais no seu usado, né? Não consigo entender isso.
- Por que será para ter uma conexão de Speed da Telefônica eu sou obrigado a ter um provedor? No site da empresa está dito que “de acordo com a legislação em vigor, a Telefônica, na condição de concessionária do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC), não pode prestar serviços de valor adicionado, como prover acesso à Internet. Para acessar a Internet, o assinante do Speedy precisa contratar um provedor habilitado”. Acho isso um absurdo. Não sei se a culpa é da legislação. Ou se a culpa é da Telefônica, que tem interesse em vender o seu portal Terra. Só sei que é uma tremenda sacanagem essa “venda casada”.
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Verdade 8 de 10 - Comunidades sociais são os novos muros das casas
A matéria de capa da Business Week de dezembro de 2005 - "The MySpace Generation" - começa assim: "Eles vivem online. Eles compram online. Eles jogam online. Seu poder está crescendo". Na época, o My Space tinha 40 milhões de usuários. Hoje, já tem 182 milhões. Se o My Space fosse um país, seria o sexto país mais populoso do mundo logo atrás do Brasil, Indonésia, Estados Unidos, Índia e China. O Orkut, a comunidade social online que pegou no Brasil, tem 57 milhões de usuários hoje. Ainda não existe um My Space em português, mas o site já tem 18 versões traduzidas. Tudo leva crer que uma versão em português virá em breve.
Dentro do My Space, do Orkut, do Small Word (uma comunidade mais fechada para ricos e famosos) as pessoas se interconectam por interesses em comum. No My Space americano são 50 mil comunidades de gente que gosta de carro, só para citar um exemplo. Tem a comunidade do Nascar. Tem a comunidade dos amantes do Mustang. E por aí vai... Nesse link, você encontra uma lista de comunidades sociais listadas no Wikipedia.
Essa segmentação de gente com interesses em comum representa uma grande oportunidade de marketing. Aprender a lidar, falar, interagir e trocar conhecimento com essas comunidades é um grande desafio para os marketeiros da Era Digital. Mas como fazer isso? Será que é através da propaganda? Mas que tipo de propaganda? Será que é através de pessoas contratadas para falar bem ou mal de alguma coisa nesses círculos, uma prática de guerrilha eticamente questionável, mas que existe? Ou será através de produtos especiais, como por exemplo o game do novo GM Prisma? Como entrar na vida dos jovens que vivem nessas comunidades online? Alguém se atreve a responder?